Uma reflexão sobre o papel do pai na ebd.

 

“Amar é brincar. Não leva a nada. Porque não é para levar a nada. Quem brinca já chegou. Coisas que levam a outras, úteis, revelam que ainda estamos a caminho: ainda não abraçamos o objeto amado.” Rubem Alves.

Presença e atenção
Nós, homens-pais, temos certa inveja do papel que as mulheres-mães representam na vida dos filhos. Partimos com uma larga desvantagem: por nove meses o contato direto da criança é somente com a mãe. Depois, ainda tem o tempo da amamentação, quando o pai parece mais um acessório. Pesquisas revelam que, na maioria das vezes, é a mãe que leva o filho ao médico, à escola, à igreja, às compras... Até mesmo para conversar, os filhos e filhas preferem as mães. Como empatar esse jogo? Somente com mais presença, carinho, atenção e, acreditem, autoridade, aquela que oferece proteção e cuidado, respeitando a liberdade dos filhos.


Muita coisa está mudando em nossas famílias. Se, tempos atrás, era o homem o chefe da família, hoje 29,2% dos lares são chefiados por mulheres (IBGE). Também existe uma maior valorização da família, tida como um porto seguro diante das incertezas e dos riscos da vida pública. Fala-se em família pós-moderna ou contemporânea, aquela que é mais tolerante com a diversidade, com mais espaço para a individualidade. É neste ambiente que os homens-pais estão desafiados a encontrar o seu lugar. Tem tanta coisa pra conversar: a violência, o futuro do planeta, o futebol, a política, o sentido da vida; tem o tema de casa pra gente fazer juntos; olhar um filme ou ler um livro; e tem que brincar muito.
Sabemos da carga pesada que nossas crianças carregam hoje: o excesso de notícias e informações, o clima de apreensão e medo, os hábitos e exigências da vida moderna, inclusive de que a criança torne-se jovem antes do tempo. Claro que nossas crianças e nossos jovens mudam com o mundo e estão mais preparados para reagir diante de novas situações. Mas também é fundamental a presença e a orientação do adulto-pai. Já disseram que “educar um filho significa prepará-lo para não precisar de nós”, e ajudá-lo na conquista da sua autonomia. Mas, até que isso aconteça, não podemos privar os filhos de explicar-lhes o que está ocorrendo. Oferecer a eles a nossa palavra, nosso conforto e recursos para viver neste mundo. Sem deixar de também ouvir o que eles têm a dizer.
Quem é o pai?
É muito comum associar a figura do pai ao trabalhador, sério, sisudo, guerreiro, preocupado somente em prover o lar de recursos para a alimentação, a saúde, a educação etc.
Assim, a figura do pai aparece como autoridade, quando não como autoritarismo. Mas a verdadeira autoridade nasce de uma boa relação afetiva entre pais e filhos. Ela não deve ser imposta. Daí a importância de aprender com as crianças a dar valor às coisas que parecem não levar a nada, como as brincadeiras, mas que aproximam e criam vínculos afetivos para toda a vida. Penso que a dimensão lúdica e afetiva dos homens-pais foi atrofiada em nossa cultura. Ela precisa ser despertada, sabendo que isso é um acréscimo e não uma perda em relação a outras dimensões, como o trabalho, que continuarão a ter o seu valor. É o pai, guerreiro e forte, mas também menino e frágil.
 Fonte:Rui Antônio de Souza, teólogo, mestre em Comunicação Social, da equipe do jornal Mundo Jovem, Porto Alegre, RS.